CASQUEAMENTO
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Aprumos
O aspecto geral dos membros de sustentação do cavalo, como posição das patas, arqueamento dos joelhos, entre outras características, é chamado de aprumos. Na natureza, nem sempre os animais são perfeitamente aprumados, por isso é necessária uma boa escolha para a criação de cavalos.
Um cavalo bem aprumado tem maior chance de render tudo o que se possa esperar dele. Com certeza, animais bem aprumados realizam movimentos locomotores muito melhores, e para que seu cavalo esteja em perfeitas condições, seja qual for o uso dado a ele, não hesite em chamar um veterinário ou um ferrador bem condicionado. Com esta ajuda, o seu animal ficará mais bonito, saudável, e bem aprumado.
Ideal
Quartelas abertas
Joelhos arqueados
Fechados
Joelhos juntos e
quartelas abertas
Joelhos fechados
Mão de periquito
Ideal
Aberto detrás
Pés de periquito e jarretes abertos
Fechado detrás
Jarrete de vaca
(fechado)
Ideal
Debruçado
Acampado
Ajoelhado
Transcurvo
Ideal
Transcurvo detrás
Acampado detrás
Jarrete reto
Cascos
Desarmonias do corpo
Morfologia do casco
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Falanges vistas de frente
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Vista de trás
O "Equilíbrio" do Casco
Afirmar que o casco é uma peça-chave no que diz respeito à funcionalidade do cavalo é, certamente, uma frase muito pouco polêmica.
Afirmar que um cavalo bem ferrado deveria apresentar cascos perfeitamente equilibrados também não provocará grande divergência de opiniões. Mas estou certo de que poucos assuntos provocarão tanta divisão quer entre ferradores quer entre médicos veterinários como a definição de "equilíbrio" do casco.
Existem vários parâmetros que nos poderão ajudar a definir o equilíbrio do casco e podemos dividi-los em dois grupos: aqueles que definem um equilíbrio morfológico, isto é, que consideram como base a simetria do casco e o "equilíbrio" das suas formas físicas, e aqueles que definem um equilíbrio dinâmico, que avaliam a direção do movimento do membro entre as fases de apoio, o modo mais ou menos "plano" como o casco entra em contato com o solo e como depois o abandona, etc...
Idealmente, poderíamos então definir um casco "bem equilibrado" como um casco de formas simétricas e com um padrão de movimento simétrico, em que as paredes interna e externa entram em contato com o solo simultaneamente, e sem desvios para o interior nem para o exterior durante a fase de suspensão.
Na prática, infelizmente, essa situação não existe. Como tal, é muitas vezes necessário optar entre dar prioridade à morfologia ou à dinâmica, e é neste ponto que reside maior controvérsia.
O que fazer então quando nos deparamos com um cavalo com um casco simétrico mas com apoio assimétrico, ou seja, um dos lados do casco entra em contato com o solo um pouco antes do outro? "desequilibramos" o casco para conseguir um apoio simétrico? E um cavalo com um casco assimétrico mas com apoio simétrico? Aparamos o casco de modo a que fique mais "equilibrado", provocando deste modo um apoio assimétrico?
Evidentemente que não há respostas absolutas para este tipo de questões, há que analisar os casos individualmente e ter em conta uma série de fatores: conformação, idade, atividade na qual o cavalo é utilizado, etc...
Todo o membro deve ser observado para que melhor se compreendam os efeitos que determinada "correção" pode ter sobre os aprumos. Por exemplo, é comum afirmar que um cavalo esquerdo (cavalo que apresenta uma rotação da extremidade dos membros anteriores para fora) deve ser corrigido "baixando" o casco do lado de fora, isto é, cortando mais a parede externa do casco. Ora, o que geralmente acontece com este tipo de conformação é que se costuma desenvolver em cavalos abertos de frente, isto é, cavalos que apóiam os membros anteriores mais afastados um do outro quando parados e vistos de frente, o que origina um maior esforço sobre o lado interno dos membros e, conseqüentemente, um maior desgaste da parede interna do casco.
Portanto, ao "baixarmos" a parede externa do casco, estamos a tentar equilibrar a distribuição do peso, aliviando todo o lado interno do membro.
Por outro lado, um outro cavalo, também esquerdo mas que seja tapado de frente (apoiando os membros mais perto um do outro formando como que um "V" quando visto de frente) já desgasta mais a parede externa do casco, pelo que não faz sentido "baixá-la" ainda mais.
Outro aspecto a ter em conta, como já referimos, é a idade. Quando falamos de cavalos adultos já não podemos corrigir, limitamo-nos a compensar e melhorar aprumos e outras características ligadas aos andamentos (por exemplo, evitar que um cavalo se toque ou se alcance). Qualquer tentativa de correção propriamente dita deve ser feita antes dos 9-12 meses de idade, pois nesta idade já as chamadas placas de crescimento (local dos ossos longos onde ocorre o crescimento em comprimento) dos ossos das extremidades dos membros estão "soldadas". Daí se compreende a importância do acompanhamento, por parte do ferrador, do crescimento dos cascos nos poldros logo a partir das primeiras semanas. Nesta tenra idade, umas pequenas passagens com a grosa podem ter um valor incalculável meses ou mesmo anos mais tarde.
Em conclusão, ao analisar os cascos de um cavalo adulto é importante observá-lo tanto parado como em movimento, devendo os cascos ser aparados de modo a proporcionar uma distribuição uniforme do peso, evitando "correções" radicais e não comprometendo a normal expansão dos quartos e talões através da colocação de cravos demasiado atrasados ou ferraduras demasiado pequenas. Independentemente da forma material das ferraduras utilizadas, devemos procurar uma ferração com a qual o cavalo se sinta o mais confortável possível, em vez de o tentar corrigir em função de um aprumo ideal que não existe.
Um depoimento:
Por Jaime Granja:
Vamos falar de casqueamento de um potro recém-nascido. Um potro deve começar fazendo o traba-lhao de casqueamento com menos de um mês de vida. Se esse potro for "bom de aprumo", esse trabalho deve ser feito a cada 30 dias. Caso tenha problemas de aprumo, desvio de joe-lhos ou jarrete, há necessidade de casqueamento de 15 a 20 dias. O tempo para se corrigir estes problemas é de até os seis meses de idade. Sempre que o ferrador ou casqueador tiver alguma dúvida, a melhor atitude é pedir ajuda a um veterinário especializado."Eu como ferrador há mais de 15 anos e treinador há mais de 25 anos, prefiro fazer o primeiro ferrajeamento quando vou iniciar a doma, após os dois anos de idade. Este trabalho só é feito antes desta idade caso o potro tenha algum problema for participar de competição ou até mesmo de um leilão", afirma Jaime. Isto evita que os cascos se danifiquem.Existem vários tipos de ferrajeamento. Para cada modalidade esportiva existe uma maneira dife-rente de ferrajear, além de ferrajeamento ortopédicos que são usados nos casos de laminite, problemas de navivular, ostóites podal, fraturas de terceira falange e tendinite. "Já peguei vários casos de animais com problemas graves, mas com ajuda de veterinários e ferrajeamento ortopédicos, hoje estes animais estão ótimos, trabalhando e ganhando provas".O tempo máximo que dura um ferrajeamento é de 40 dias. Passado este tempo, os cascos compridos, mesmo com o cavalo parado, forçam os tendões e os boletos. Muitos perguntam se este serviço causa dor ao animal. Muito pelo contrário. Se for feito por um profissional consciente, além de proteger o cavalo contra problemas futuros, dá mais velocidade e protege os cascos.Colaboração: Jaime Granja tem um centro de treinamento junto com Paulo Granja, na cidade de Piracicaba, rodovia Piracicaba-Anhumas, km 12, bairro Volta Grande, fone (19) 9781-4692.
Anatomia dos membros:
1.Ossos: O membro posterior, logo abaixo da bacia ou pélvis, consiste do fêmur, da patela (correspondente ao joelho humano), e depois de tíbia e fíbula, os quais ficam em posição paralela entre si. Em seguida, o tarso ou jarrete‚ composto por seis ossos, dos quais o maior é o calcâneo, que forma a ponta do jarrete e corresponde ao calcanhar humano. Em seguida, há o metatarso, com dois metatarseanos acessórios, e as falanges, que compõem o sistema digital: primeira falange (proximal), segunda falange (média), e terceira falange (distal); esta última é o osso do casco. No caso existem ainda os ossos sesamóide distal e navicular. Entre o metatarso principal e a falange proximal, estão os dois sesamóides proximais. O membro anterior inicia na escápula, que se articula com o úmero. Este se encontra com os dois ossos do antebraço, o rádio e a ulna. A extremidade distal da ulna é o olécrano, que corresponde ao cotovelo humano. Rádio e ulna se ligam ao metacarpo através de um conjunto de oito pequenos ossos, os carpeanos (correspondentes ao pulso, no ser humano. Tal como no posterior, no anterior o metacarpo tem dois metacarpeanos acessórios. A estrutura da parte inferior do membro anterior é idêntica à do posterior.
2. Articulações, ligamentos, tendões As extremidades de cada osso longo são cobertas pela cartilagem articular, a qual forma a movimentação das extremidades ósseas entre si praticamente livre de atrito. A cartilagem também distribui sobre uma área mais ampla as forças e tensões às quais o membro é sujeito, diminuindo o desgaste da estrutura. Toda articulação (junção entre dois ossos) é formada por uma cápsula articular, que contém a bainha de cartilagem, a membrana sinovial e o líquido sinovial. As articulações são estabilizadas e conectadas entre si, ao esqueleto, e aos músculos através de tendões, ligamentos e cápsulas articulares: os dois últimos conectam ossos entre si, enquanto os tendões ligam músculos a ossos. Tendões e ligamentos são compostos principalmente de colágeno.
Patologia e afecções do aparelho locomotor Problemas típicos do cavalo jovem:
1. Deformidades angulares dos membros: causada por crescimento desigual dos membros. Tratamento por
casqueamento ou cirurgia, dependendo do caso. Para a normalização, é importante que o tratamento seja iniciado o mais cedo possível.
2. Epifisite: aumento da placa de crescimento dos ossos longos, geralmente associado a alimentação excessivamente rica.
3. Fraqueza dos tendões flexores: presente nos recém-natos, pode envolver os quatro membros ou apenas os posteriores. Geralmente tem resolução espontânea.
4. Deformação congênita do aparelho flexor: os potros são incapazes da extensão completa da articulação afetada; pode ser congênita: secundária ao mal posicionamento do feto na gestação, ou a predisposição genética. adquirida: derivada de dor crônica que leva a menor apoio do membro; a dor pode ser causada por Epifisite ou doenças infecciosas, entre outras. Pode exigir terapia, tal como colocação de aparelhos ortopédicos ou mesmo cirurgia.
5. Ruptura do tendão extensor digital comum: presente no parto, nem sempre reconhecida, manifestando-se por inchaço na parte cranial do corpo. Costuma se resolver com tratamento ortopédico.
6. Lesões da epífise: traumas na placa de crescimento dos ossos longos, podendo resultar em irregularidade no crescimento daquele osso, resultando em claudicação crônica.
7. Artrite/epifisite infecciosa: infecção bacteriana de uma ou mais articulações, por vezes secundária à contaminação do coto umbilical. Pode resultar em septicemia (infecção generalizada) e morte do potro.
8. Osteocondrose: disfunção da cartilagem de crescimento, podendo resultar em osteocondrite dissecante (OCD), provavelmente relacionada a fatores nutricionais.
9. Ossificação incompleta do carpo e/ou tarso: fatores de deficiência nutricional ou predisposição individual podem resultar em deformidades angular ou de flexionamento em carpo ou tarso, que mais tarde resultam em deficiência de aprumo acompanhada ou não de claudicação (ex.: jarrete de vaca). Pode ser corrigido por medidas ortopédicas.
10. Exostose hereditária múltipla: presença de sobreossos múltiplos nos diversos ossos do corpo. Condição hereditária, nem sempre associada a claudicação, porém prejudicial do ponto de vista estético e às vezes funcional, dependendo da localização do sobreosso. Não há tratamento conhecido.
Problemas músculoesqueléticos ocorrendo em cavalos de qualquer idade .
1. Osteíte, osteomielite, sequestro ósseo: condições inflamatórias do osso, geralmente provocada por infecção secundária a trauma (contaminação). Exige tratamento local e as vezes sistêmico. Se evoluir para osteomielite, o prognóstico passa a ser reservado.
2. Osteodistrofia fibrosa (cara inchada): disfunção generalizada causada pela deficiência de cálcio associada ao excesso de fósforo na dieta, levando à desmineralização óssea.
3. Fraturas: geralmente causam claudicação e edema do membro afetado. Tratamento c cura dependem da idade do animal, localização da fratura, presença de comprometimento articular, bem como diagnóstico e tratamento precoces. Obs: Existem inúmeros tipos de fraturas, cuja gravidade e tratamento depende do osso onde ocorrem, região afetada do mesmo, causa da fratura, etc. Elas serão descritas mais detalhadamente num artigo futuro.
Problemas articulares
1. Ovas: aumento crônico de volume da articulação, de etiologia exata desconhecida porém geralmente associada a atividade intensa. Pode ter relação com deficiência de conformação. Geralmente não ocorre manqueira.
2. Sinovite traumática: consequências de traumatismo articular, geralmente em carpo e boleto de cavalos de corrida jovens. Pode estar associada a aumento de volume ósseo. Corresponde bem a uma combinação de repouso, tratamento típico e fisioterapia.
3. Entorses e luxações: causa traumática. Entorse é a ruptura total ou parcial dos ligamentos de uma articulação; na luxação, ocorre o deslocamento total ou parcial dos componentes da articulação. No deslocamento parcial (subluxação), o tratamento pode ser conservativo, enquanto que nas luxações completas, o tratamento é geralmente cirúrgico.
4. Doença articular degenerativa: deterioração progressiva cartilagem articular, acompanhada de proliferação óssea na região. Origem infecciosa ou traumática, neste caso, pode ser aguda ou crônica (desgaste acumulado).
Problemas de tendão
1. Tendinite: inflamação do tendão, secundária a exercício excessivo ou trauma. Mais frequente no tendão flexor digital superficial em cavalos de atividade intensa. Corresponde a uma ruptura das fibrilas do tendão, que pode ser parcial ou total. 2. Tenosinovite: inflamação da membrana que reveste o tendão, podendo ser ideopática (sem causa definida), aguda, crônica ou infecciosa.
3. Laceração da bainha do tendão: traumatismo rompendo a bainha que envolve o tendão. O tratamento pode exigir imobilização por gesso, além de medicação para evitar infecção secundária.
4. Luxação do tendão: deslocamento do tendão flexor digital superficial do posterior, geralmente secundária a traumatismo do jarrete. Requer tratamento cirúrgico.
5. Ruptura traumática do tendão: é mais comum no membro posterior. Requer repouso completo e às vezes correção cirúrgica.
6. Ruptura degenerativa do tendão: as diversas causas degenerativas que podem comprometer os tendões incluem infecção, complicações do mal do navicular, ou secundária à neurectomia. O tratamento nem sempre é bem sucedido.
7. Corte do tendão: o trauma cortante é bastante comum, geralmente causado por arame. Limpeza completa e frequente ‚ necessária junto com repouso e administração de medicamentos. A cirurgia às vezes é necessária. É muito importante que sutura ou cirurgia sejam feitas o mais rápido possível após o acidente.
Problemas dos ligamentos
1. Desmite do ligamento suspensório: secundária a esforço excessivo durante o treinamento. Treinamento similar ao das tendinites.
2. Esparavão: inflamação e espessamento do ligamento plantar, que é quem envolve o osso calcêno do jarrete. Pode haver formação de sobreosso nos casos crônicos. O grau de claudicação depende da conformação.
3. Ruptura do aparelho suspensor: ocorre ruptura de uma ou mais das estruturas de suspensão do boleto, geralmente em cavalos de corrida e as vezes nos de salto. O tratamento exige imobilização imediata e cirurgia, e o prognóstico é reservado. 4. Desmite do ligamento sesamóide distal: ocorre secundária a entorses ou fraturas, levando a manqueira aguda. Pode haver sobreossos nos casos crônicos. A reconvalescença é demorada e a reincidência elevada.
Problemas do casco
1. Laminite: inflamação das laminas do casco, que ligam a Falange a parede do casco. Pode ter uma variedade de causas, desde traumáticas a processos tóxicos. Atinge geralmente os anteriores, e vai se agravando progressivamente, se não diagnosticada e tratada a tempo. É, uma condição muito dolorosa, que exige tratamento de emergência para evitar a rotação da falange.
2. Doença do Navicular: uma das causas mais comuns de claudicação intermitente dos anteriores. Degeneração do osso navicular, geralmente causada por conformação deficiente aliada a trabalho intenso. Tratamento apenas paliativo, com a neurectomia sendo o recurso extremo.
3. Fratura do Navicular: ocorre raramente, devido a fratura ou secundária a doença do navicular. A cura completa ‚ muito difícil, limitando a utilização futura do animal.
4. Talões rebaixados: colapso do tecido entre os talões, causado pelo desequilíbrio do casco devido a casqueamento e ferrageamento inadequados. Os sinais clínicos podem ser similares a doença do navicular. O tratamento é centrado no reequilíbrio dos talões através de um casqueamento correto.
5. Osteíte podal: vascularização e desmineralização da terceira falange, geralmente causada pela inflamação resultante de concussão repetida. Pode estar associada a doença navicular. O tratamento inclui o ferrageamento com palmilhas, bem como a eliminação da causa do problema (ex.: trabalho em piso duro).
6. Fraturas de terceira falange: problema raro, geralmente resultando do exercício em piso duro. Diagnóstico confirmado por radiografia. A recuperação pode levar até um ano, porém a recuperação é boa, desde que a fratura não tenha envolvido a articulação.
7. Casco encastelado: considerado uma forma avançada de artrite degenerativa, causada por crescimento ósseo na região do processo extensor da terceira falange. Pode ser secundário a fratura, inflamação, ou a outros traumas. A claudicação depende da intensidade do encastelamento. A terapia depende da causa, e o prognóstico é reservado quanto a ausência de claudicação a longo prazo. Referência: UC-Davis Book of Horses, Veterinary Notes for Horse Owners, Enfermidades dos Cavalos (Armen Thomassian)
Uma crônica ... Trabalho do ferrageador:
Quando o homem domesticou o cavalo e começou a usá-lo como meio de transporte, a primeira limitação que encontrou foi em relação aos cascos. Em terreno macio, o desgaste era pequeno, mas existia. Em solo pedregoso e acidentado, os cascos quebravam muito facilmente, inutilizando temporariamente o animal. Para proteger os cascos, foram feitas diversas tentativas com materiais ao alcance daqueles pioneiros - couro, cordas etc. - até que chegaram ao ferro moldado no formato dos cascos, a conhecida ferradura. A especialização foi se firmando e a figura tradicional do ferrador - de avental de couro, empunhando um martelo e uma ferradura em brasa na frente de uma bigorna - tornou-se há muito conhecida de todos, mas chegou a nossos dias com poucas modificações. Hoje, a finalidade primordial continua a mesma: proteger os cascos e corrigir problemas de aprumos e outros de ordem interna (navicular, calcificação das cartilagens alares, 3a falange etc.). Porém, nos últimos 15 anos, houve um avanço tecnológico muito grande no setor, com o surgimento de novidades até pouco tempo inimagináveis, que agora fazem parte do cotidiano dos ferradores mais atualizados. A evolução começou quando Riki Ridden e David Duckett, dois dos mais conceituados ferradores norte-americanos, resolveram estudar o equilíbrio dos cascos e chegaram a um novo conceito, que foi chamado de four point trim ou corte dos quatro pontos. Essa técnica estabelece dois pontos a frente do casco (visto pela palma), ladeando a pinça, e outros dois em cima dos talões, ladeando a ranilha. São também chamados de pilares, termo muito adequado porque, de acordo com os estudos, suportam todo o peso, quer seja em repouso, quer em atividade, em linha reta ou em curva, quando o peso incidente aumenta muito. Posteriormente, dois outros técnicos, Gene Ovnicek, norte-americano, e Cristopher Politt, australiano, estudando cavalos selvagens e observando o desgaste normal dos cascos, chegaram a um conceito de equilíbrio chamado natural balance, com menos casco na frente (pinça) e um formato arredondado no perfil, exatamente o formato que o desgaste natural proporciona. Essas duas técnicas - four point trim e natural balance - são compatíveis e a combinação delas é usada pelos melhores ferradores. No Brasil, um deles é Ricardo Corrêa Dias de Moraes, médico veterinário formado em 1981 pela USP, que em 1993 também passou a exercer a profissão de ferrador. Antes, em 1976, Ricardo já havia feito um curso com o mestre ferrador Donald Curtis, vindo de Newmarket, Inglaterra, para um seminário no Posto de Fomento do Jockey Club de São Paulo, em Campinas. Depois, formado, com residência no jockey em 1981/82, mais cinco anos com o veterinário Thomas Wolff e outros cinco como veterinário responsável pelos cavalos da Pamcary, famosa coudelaria de salto de São Paulo, decidiu combinar as duas atividades, adotando uma atitude de primeiro mundo porque, nos EUA, os melhores ferradores, como Rick Redden, Burney Chapmann (especialista em aguamento) e Cristopher Pollit, são veterinários de formação. Em São Paulo, há mais três nas mesmas condições: Fábio Furquim, de Araçatuba; Carlos Akira, de Garça; e Edson Pagotto, de Pirassununga. Ricardo é especialista em cavalos com problemas. Um de seus clientes é o Haras San Francesco, da raça PSI, onde atende o reprodutor Choctaw Ridge, que tem dores lombares. Com ferraduras especiais, criadas para dar mais apoio nos posteriores, conforme solicitado pelo veterinário Jorge Teivellis, a dor deve aliviar e Choctaw Ridge poderá realizar as coberturas da próxima temporada de monta com tranqüilidade. Ele atende também o garanhão Embaixador, da raça Andaluz, que custou US$200 mil, teve aguamento das quatro patas em agosto do ano passado e perdeu todos os cascos. Nesse caso, Ricardo usou uma técnica chamada ressecção de parede, desenvolvida nos EUA e Austrália, que tem mais de 20 alternativas diferentes de uso. Cabe ao técnico selecionar a mais adequada para cada caso. Devido ao desconhecimento do método por parte dos veterinários e ferradores, essa técnica foi malvista durante muito tempo, segundo Ricardo. Por conta disso, ele pesquisou, aprendeu e usou a correta para o caso de Embaixador que, passados apenas nove meses, já está galopando. Outro sucesso dessa terapia foi com Dólar, reprodutor Andaluz do Haras Vale do Aretê, de Araçariguama (SP). Uma das bandeiras defendidas pelo veterinário é quanto a formação dos ferradores. Na Inglaterra, por exemplo, existe escola própria e ninguém pode exercer sem o diploma. Nos EUA, são classificados por conceito - algo mais ou menos como o handicap dos polistas - e representados por uma forte associação de classe. Outra preocupação dos criadores e proprietários de cavalos de todas as raças deveria ser com cursos de atualização dos ferradores, como já fez James McFarland, que trouxe Kappy Kaplan dos EUA, um top que faz parte do Hall of Fame do Kentucky. Mais recentemente, a Thoro'Bred trouxe Tom Currel, e a Matheis Borg, o especialista Grant Moon. Caio Flávio Stettiner, representante oficial Thoro'Bred no Brasil, incentivou a vinda de Tom Currel também para apresentar as últimas novidades da empresa, como a world racing plate, uma ferradura baseada no casqueamento dos quatro pontos e que facilita o break over, fazendo o cavalo andar mais com menos esforço físico, poupando tendões e ligamentos.
DIFERENÇAS NO ENDURO
José Ocimar de Oliveira, que foi aluno de Ricardo Moraes, é ferrador há apenas três anos, mas sempre teve simpatia pela profissão e habilidade para trabalhos manuais. Nascido e criado em Bragança Paulista (SP), cidade onde há muitos praticantes de enduro, nada mais natural que a maioria dos clientes fosse dono de cavalos para esse esporte. Daí para virar especialista nessa modalidade não foi difícil, embora atenda alguns cavalos de adestramento. A Confederação Brasileira de Hipismo (CBH) o convocou para a equipe brasileira que foi a Dubai disputar o Mundial de Enduro, por indicação dos próprios cavaleiros. Ocimar atende os cavalos de Eliana Rocha Leão, de Gerson Vieira (que foi a Dubai como veterinário), Ariel Adjiman e de outros enduristas. As ferraduras dessa modalidade eqüestre são completamente diferentes. Os cavalos de enduro precisam de palmilhas - de poliuretano - para proteger a palma do casco e servir de amortecedores, visando reduzir o efeito dos impactos em solo duro ao fim de longas distâncias. O casqueamento desenvolvido por Ocimar tem como base, além dos quatro pontos de corte, o natural balance, aproveitando o rolamento das pinças nas mãos e deixando a frente quadrada nos pés. Esse corte atrasa a saída dos cascos do chão, mudando o ponto de quebra, o que alonga o passo, economizando movimento e energia. Alguns centímetros a mais por passada representam muitos lances a menos num percurso de 160 km. A mesma técnica é usada para os cavalos de adestramento, em que a elegância no andar é a exigência máxima, fazendo com que cavalos de passada curta acabem "transpistando", ou seja, o pé passa a frente do local onde estava a mão. Para o Mundial de Dubai, Ocimar de Oliveira usou ferraduras natural balance shoes da Thoro'Bred - outra das novidades trazidas por Caio Flávio, também ele um casqueador experiente - nas mãos, e de ferro nos pés, todas com palmilhas para os cavalos brasileiros, e, para os cavalos norte-americanos, que foram usados por parte da equipe do Brasil, ferros tipo snikers - ovais, de borracha, com miolo de alumínio e um furo pequeno no centro -, que protegem a palma e proporcionam o amortecimento. Em função desse trabalho, a equipe foi a segunda mais elogiada no que tange às ferraduras. Em todos os campeonatos brasileiros e paulistas, Ocimar de Oliveira é o ferrador oficial pela Liga de Cavaleiros de Enduro Eqüestre, tendo ainda participado dos Jogos Mundiais da Natureza, em 1997, na costa oeste do Paraná, de Foz de Iguaçu a Porto Mendes.
RESULTADOS DO SALTO
No feet, no horses, dizemos ingleses. Cezar Rodrigues Craveiro Filho, ferrador oficial da empresa Trovatto Farrier, de Curitiba, especialista em ferrageamentos especiais e correções de casco, representa bem o sentido dessa frase nos seus 37 anos de profissão. Irmão caçula de outros dois ferradores, Cezar é um dos mais conceituados profissionais do momento, em um trabalho aprimorado depois de acompanhar, com sucesso, a equipe brasileira que disputou a Copa do Mundo na Suécia, em 1998, além de outros campeonatos internacionais pela Europa, sempre prestando serviços aos animais dos cavaleiros Álvaro Afonso de Miranda Neto (Doda), Nelson Pessoa (Neco), seu filho Rodrigo Pessoa e Fábio Antonio Boson. Um de seus trabalhos na Europa foi com Vivaldi, de Neco Pessoa, que tinha problemas há três anos. Outros ferradores já haviam tentado, sem sucesso, recuperar seu desempenho. Cezar, ferrou Vivaldi que, logo depois, ganhou um campeonato na Itália. Ipiranga Pamcary, quando ainda era de Doda, teve problemas no navicular e calcificação das cartilagens alares (osteíte). Cezar não revela segredos profissionais mas a atuação de Ipiranga em 1998 - quando foi campeão da série Proprietário Master no Ranking da Hípica Paulista, e vice-campeão do Troféu Eficiência pela Federação Paulista de Hipismo, agora com o cavaleiro José Augusto Novaes Silva Filho - atesta sua recuperação.
AGARRADEIRAS NO TURFE
O turfe é uma das atividades que mais exprime a vocação do cavalo para as competições, em que diferenças milimétricas decidem a consagração ou a derrocada de linhagens sangüíneas e profissionais dedicados. Nesse setor, não existem meias medidas. Ferraduras corretivas quase não são vistas nos hipódromos porque se um cavalo precisa delas, certamente, não servirá para o esporte, com raras exceções. Carlos Gilberto de Oliveira é ferrador desde 1978. Thignon Lafré, April Trip, Curitiba e outros campeões já foram ferrados por ele. Atualmente, é responsável pelos ferros do tríplice coroado paulista Quari Bravo, do Haras Phillipson, e de Jack Grandi, do Stud Tevere, melhor corredor em pista de areia do país, que foi vendido para o turfe norte-americano. A mais recente novidade são as agarradeiras, como as que usava Jack Grandi quando quebrou o recorde para a distância no GP Bento Gonçalves - 2.400 metros em 2'28"5 - no final do ano passado, no hipódromo do Cristal, em Porto Alegre. Segundo Gilberto, as agarradeiras são extremamente eficientes em pistas compactadas, como a do Cristal, Tarumã, Palermo e La Plata, mas perdem resultado em areia muito solta, como Cidade Jardim e Gávea. Caio Flávio, entretanto, defende sua utilização em qualquer tipo de terreno, pela firmeza conseguida nas arrancadas violentas - um PSI vai de zero a 60 km/h em três ou quatro lances - e nas curvas, quando o posicionamento ideal confirma ou invalida a chance do animal. Para o veterinário Antônio Luiz Cintra Pereira, o Tolu, as agarradeiras "estão se mostrando eficientes em qualquer tipo de terreno, e seu uso deve ser incentivado, pois realmente melhoram o desempenho".Para Tolu, que atua como supervisor de treinamento no CT Porto Feliz (SP), o único empecilho é o preço: "Isso impede que muitos treinadores de recursos financeiros menores possam comprar as ferraduras; e o ideal é que todos os cavalos usem, pois assim haverá um maior equilíbrio técnico nas corridas", finaliza.
Cavalo Completo
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